Melhor que pensava
Um único Carnaval no Rio de Janeiro, com aquela multidão toda e alguma dificuldade para locomover, me fizeram ter dois pés atrás da maior festa do Brasil. Mas foi justamente em casa que reencontrei a alegria de sair nas ruas nesta época.
Claro que fiz questão de evitar aglomerações. Multidão me tiro o humor, a paciência e muito mais.
O risco existia já que Belo Horizonte recebe mais turistas a cada ano e o que não falta é gente espalhada pela cidade.
Mas, no fim, deu tudo certo. Mesmo de plantão em três dos quatro dias, consegui aproveitar, como folião, dois blocos que foram muito bons. Se eles não tivessem sido tão bons, eu continuaria achando que Carnaval é confusão, muvuca, gente bêbada e alguma ressaca de lambuja.
Blocos menores são os ideais. Pouca gente, pouca fila pra tudo e você logo ali perto do carro de som, da bateria ou da banda. Música boa é pré-requisito. Nada de axé dos anos 1990 ou sertanejo. Não, obrigado.
O Memórias Cantando estreou neste ano e ganhou na minha apuração. Bloco parado, no começo da Rua Sapucaí, entoando sambas canção e músicas de carnaval de uma outra época. Uma samba afinada deixou tudo no jeito.
O outro foi o Unidos do Barro Preto. Este andava pelas ruas do 'pólo da moda', com uma kombi sustentando algumas caixas de som e um bocado de gente atrás. Mas nada de lotação, um quarteirão foi o máximo que foi ocupado pelo bloco. Quem quisesse, podia se 'pintar' de barro, que era 'fornecido' por gente do bloco, em baldes. Se eu não tivesse que trabalhar mais tarde, certamente entraria nessa. Neste caso, faltaram alguns ambulantes e muitos banheiros.
Sanitários no Carnaval são fundamentais e os responsáveis pelos blocos têm a obrigação de fazer todo o esforço para não faltar. Não sei se a prefeitura complicou as coisas, mas vi muita gente (inclusive mulheres) fazendo xixi na rua. No desespero, foi o jeito. Teve uma turma de uma construção perto que não acreditava no que via.
Em 2017, espero estar de folga para aproveitar apenas alguns mais. Um atrás do outro não sei se será minha praia. O melhor de tudo é que o preconceito inicial ficou pra trás e agora estarei pronto para me jogar um pouco mais. Só um pouco...
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Chave no vidro
A pressa fez com que, antes mesmo de sair de casa, logo cedo, garrafas já estivessem rolando pelo chão da cozinha. A vizinhança devia estar adorando. Achava um absurdo aquele tanto de vidros em lixeiras comuns e fazia questão de colocar todas no local correto, da coleta seletiva, perto de casa.
A reunião na noite anterior foi boa e fez com que ele tivesse que recolher tudo o que fora consumido poucas horas antes. O sono fora longe de ser profundo. Cerveja, vinho e até o resto do velho Jack, que finalmente se fora. O compromisso pela manhã o colocava justamente no caminho do local onde sempre deixava os vidros. Apesar da pressa, tudo em ordem, tirando a bateção de vidro no porta mala. Mas o pior estava por vir.
Naquela correria, abriu o porta mala e deixou a chave na mão, ao invés de colocar no bolso, como sempre fizera. Resultado: os vidros todos foram parar no gigante recipiente junto com a chave. Percebeu quando foi abrir o carro. Que sorte!
Não conseguia acreditar no que estava acontecendo. Não sabia se ligava para o chaveiro, se tentava arrombar a lixeira de vidro ou se sentava no meio-fio e chorava. Colocou-se na ponta do pé para tentar ver onde estava a chave, como se fosse adiantar. Dois chutes na caçamba e um grito solitário ecoaram pela rua vazia. A chave reserva já tinha ido para o espaço há meses. Pensou em ligar pra mãe e desabafar. O resultado seria nulo.
O tempo passava e decidiu ir caminhando, até encontrar um táxi. Na volta, veria o que fazer. Somente quando chegou em casa, lembrou do incidente da manhã.
"Pua que pariu!", foi a única coisa que conseguiu pensar. Foi até o local e, para sua surpresa, a caçamba estava vazia. Não sabia se era bom ou ruim. Só quando já virava as costas para mais momentos de desespero é que percebeu, debaixo de uma pedra, encostada em uma das várias caixas de papelão, um pequeno metal reluzente. Ao lado, um papel. "Mais cuidado da próxima vez" e a chave logo ali, com alguns resquícios de vidro. O cheiro de cerveja escura no chaveiro do time do coração que ficaria para sempre como um lembrete do preço que se passa por desnecessários desesperos.
Concorrência
Sou a favor do Uber. Por que ser contra um atendimento melhor e mais atencioso, contra um serviço mais prestativo e satisfatório? O conforto é outro, disso não há dúvidas. Os motoristas parece que fazem questão de atender bem, ao contrário de tantos taxistas, que fumam dentro do carro e não conseguem manter um simples diálogo. Há casos e casos.
A concorrência aparece para todos, em vários setores, e com os taxistas, que antes pareciam únicos na praça, não está sendo diferente. Talvez seja bom para que ela revejam alguns conceitos.
No México, o Uber foi regulamentado e acredito que esse pode ser o caminho. Colocar pré-requisitos, taxas ou algo parecido para que eles possam rodar. Não sei se isso acontecerá, mas seria um cenário ideal.
E os interessados que optem pelo serviço que irão usar e pelo 'investimento' que irão fazer. As 'jogadas de marketing' do Uber estão de parabéns. A última dela foi dar picolés de graça para os clientes. Estas e outras ações estão deixando os taxistas furiosos. Bom para aprender. A realidade é essa e aparece para todos. Sairão bem dela quem souber lidar de uma forma mais eficaz e criativa.
E nisso, os taxistas estão atrás. O que conseguiram, até agora, foram protestos e agressões. Posturas longe do reconhecimento que poderiam ganhar com uma alternativa covarde e longe de chegar a uma solução.
E nisso, os taxistas estão atrás. O que conseguiram, até agora, foram protestos e agressões. Posturas longe do reconhecimento que poderiam ganhar com uma alternativa covarde e longe de chegar a uma solução.
Custa nada
Não sabia, mas podia ser considerado um profissional diferenciado. Afinal, quantos garçons como ele tinham a noção para tirar uma boa foto, com composição, textura, enquadramento e um ângulo decente? Poucos, com certeza.
Com 19 anos, fez um curso de fotografia e entrou naquele mundo, mesmo que aos poucos. Comprou uma câmera mais antiga com o primeiro salário e ia investindo quando e como dava. Uma lente aqui, outra ali...
O sonho de viver da fotografia ficou pelo caminho e teve que se virar. O trabalho no restaurante perto de casa, aos 35, servia para compôr a renda do escritório, onde ficava durante o dia. Pouca gente sabia como um garçom ganhava bem, considerando a realidade do período. Em alguns meses, o salário no restaurante superava o 'emprego fixo', graças às generosas gorjetas.
Boa parte delas vinha da sua simpatia e das fotos que tirava, acreditem ou não. Alguns clientes não demoraram a perceber seu talento para a coisa e sempre pediam uma nova foto, mesmo com as mesmas pessoas reunidas. Era postar a foto que curtidas e comentários nas redes sociais se espalhavam, alguns elogiando o talento do fotógrafo. Uma das clientes fez questão de colocar uma das fotos tiradas por ele na sala de casa, de tão boa que ficara. A data da reunião, claro, contribuíra.
Enquanto alguns colegas não tinham a menor condição de registrar uma imagem, ele já se mostrava diferenciado no assunto. Ficava na dele, sem dar dicas para os possíveis 'concorrentes'. Sabia que suas fotos faziam sucesso entre os frequentadores do restaurante. Alguns quadros que decoravam o salão, inclusive, eram de fotos feitas por ele, em parceria com o proprietário, que prometeu guardar segredo. Pratos e paisagens, em sua maioria.
Por mais que a renda o deixasse contente no final do mês, uma grande alegria veio em uma manhã qualquer. Uma cliente antiga e assídua, que ele não imaginava ser uma megaempresária, fez questão de lhe dar o crédito em foto enviada para uma coluna social. Seu nome acabou aparecendo em um dos maiores jornais do país. Foi avisado pelo 'incidente' pelo dono da banca de revistas na esquina de casa.
A partir daí, sempre que tirava uma foto de clientes, mesmo para postagem em redes sociais, fazia um pedido que nunca era esquecido. 'Tem como dar crédito?'
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Caiu na rede
Estava ali há mais de 20 minutos e nada do amigo chegar. Tinha acabado de pedir o terceiro chopp quando viu na mesa ao lado um casal se pegando, daquele jeito. Tentou desviar a atenção, mas a coisa estava além do normal.
Não pôde deixar de reparar no rabo de cavalo pintado de roxo da bonita moça. Lembrou-se, quase que de imediato, de um vídeo que havia recebido, dias antes, no grupo de amigos.
Pegou o telefone e não conseguia acreditar no que via. O casal ao lado era o mesmo do vídeo que recebera. Dois minutos e vinte segundos que o fizeram ver o vídeo repetidas vezes. O casal do vídeo era o casal ao seu lado, não tinha dúvidas.
Como era possível? Preferia nem pensar, só tinha certeza que eram eles.
Não demorou para receber uma mensagem do amigo informando que não chegaria a tempo. Pediu mais um chopp e não conseguia tirar o olho do afortunado casal.
Imaginou se eles já sabiam da propagado vírus. Instantes depois, a moça ficou sozinha na mesa quando o companheiro foi ao banheiro. Olhou para ela e foi retribuído de imediato. Sorriu, ela sorriu. Piscou, ela piscou. Tudo aquilo estava acontecendo, de verdade.
Quando o rapaz voltou, não resistiu. Foi até a mesa deles e, com muito jeito, se apresentou e falou do vídeo. Perguntou se eles sabiam, foi informado que sim e ficou impressionado com a naturalidade do casal. Sentaram juntos, estavam namorando há apenas três meses.
- Vocês não se incomodam?
- Nem um pouco. Deixamos os outros pensarem o que quiserem. Meu celular foi roubado e o vídeo caiu na rede. Paciência... - respondeu a moça.
O que era para ser um happy hour virou uma noitada a três. O bar foi seguido de boate e ainda se beliscava quando entrou numa suíte com os dois. A noite foi daquelas e pouco era lembrado na manhã seguinte. Ressaca, boca seca, dor de cabeça e amnésia. Beber vodca dá nisso...
A presença no serviço pela manhã foi estranha, cheia de olhares. Era ele o mais novo membro de vídeos que se propagam na rede. Na atividade e passividade, ficou famoso de um jeito que não queria. Não conseguia ter a tranquilidade do casal em não se importar com tudo. Demorou para se dar conta de que fora vítima de um golpe sujo, praticado por salafrários sedentos por uma perdição que tão pouco seria esquecida.
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Tapa de luvas
Tapa de luvas
O encontro já tinha mais de dez anos, mas vivia mal das pernas. Aquela 'pelada' semanal, que chegou a contar com três times e meio de fora, agora custava a ter dois times completos para o bate-bola.
Entradas e saídas foram constantes e quem ficava responsável pelas confirmações, ausências e substituições sofria a cada semana. Tinha que ligar do próprio telefone para achar alguém que cobrisse buraco, tirar um goleiro do gol e colocar na linha e por aí vai. Perdeu a conta de quantas semanas foram perdidas, aluguéis indo pro espaço.
Em um deles, um amigo de um amigo se prontificou e chegou pontualmente, quando todos já estavam prontos. Quando o viram, com seus 1,60m, se surpreenderam com o que foi dito.
- Jogo no gol.
- Como assim joga no gol? Vc não trouxe luva, meião, short de goleiro, camisa, nada. E sua altura também não ajuda...
- Só jogo no gol. E descalço.
- Oi?
- De que lado fico?
E, sem resposta, foi pra um dos times. Os risos de alguns antes da bola rolar foram engolidos a seco assim que chutes, cruzamentos e lances de perigo apareciam.
Com bom posicionamento e antecipação, ele fechou o gol, literalmente. Seu time venceu por 8 a 1, um gol contra foi marcado e nada além disso.
Na saída, quando calçava o chinelo, recebeu os cumprimentos de uns e o convite do organizador. Na semana seguinte, voltou e ganhou de presente uma luva de um dos novos colegas.
- Não precisava, mas vou aceitar.
Muitos não percebiam, mas quando a bola estava distante, as unhas do pequeno goleiro sofriam. Pelo menos foi assim na sua estreia.
Com as luvas, os dedos foram preservados e foi somente por isso que o presente foi aceito. Nada de pimenta ou coisa parecida para evitar o péssimo hábito, que acontecia somente dentro de quadra, sabe-se lá o porquê.
A luva, agora, era parceira frequente e não foi mais abandonada. Descalço, com short sem proteção, mas de luva, ele continuou fechando tudo e fazendo questão de jogar sempre no time do responsável pelo presente.
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O encontro já tinha mais de dez anos, mas vivia mal das pernas. Aquela 'pelada' semanal, que chegou a contar com três times e meio de fora, agora custava a ter dois times completos para o bate-bola.
Entradas e saídas foram constantes e quem ficava responsável pelas confirmações, ausências e substituições sofria a cada semana. Tinha que ligar do próprio telefone para achar alguém que cobrisse buraco, tirar um goleiro do gol e colocar na linha e por aí vai. Perdeu a conta de quantas semanas foram perdidas, aluguéis indo pro espaço.
Em um deles, um amigo de um amigo se prontificou e chegou pontualmente, quando todos já estavam prontos. Quando o viram, com seus 1,60m, se surpreenderam com o que foi dito.
- Jogo no gol.
- Como assim joga no gol? Vc não trouxe luva, meião, short de goleiro, camisa, nada. E sua altura também não ajuda...
- Só jogo no gol. E descalço.
- Oi?
- De que lado fico?
E, sem resposta, foi pra um dos times. Os risos de alguns antes da bola rolar foram engolidos a seco assim que chutes, cruzamentos e lances de perigo apareciam.
Com bom posicionamento e antecipação, ele fechou o gol, literalmente. Seu time venceu por 8 a 1, um gol contra foi marcado e nada além disso.
Na saída, quando calçava o chinelo, recebeu os cumprimentos de uns e o convite do organizador. Na semana seguinte, voltou e ganhou de presente uma luva de um dos novos colegas.
- Não precisava, mas vou aceitar.
Muitos não percebiam, mas quando a bola estava distante, as unhas do pequeno goleiro sofriam. Pelo menos foi assim na sua estreia.
Com as luvas, os dedos foram preservados e foi somente por isso que o presente foi aceito. Nada de pimenta ou coisa parecida para evitar o péssimo hábito, que acontecia somente dentro de quadra, sabe-se lá o porquê.
A luva, agora, era parceira frequente e não foi mais abandonada. Descalço, com short sem proteção, mas de luva, ele continuou fechando tudo e fazendo questão de jogar sempre no time do responsável pelo presente.
Saindo dos trilhos
Todo dia era a mesma história. Entrava na estação do metrô e espiava bem para ver se nenhum fiscal ferroviário estava por perto. Não gostava de chegar ali no horário de pico, seu trabalho não seria feito da mesma forma. O horário das 11h era o ideal, menos gente e mais silêncio para tentar sensibilizar um único passageiro que fosse. Com pouco esforço, a meta era superada diariamente.
Com 37 anos de idade, separado e pais de dois meninos, ele tinha uma oratória única e chamativa. Pedia um trocado diariamente e tudo que arrecadava ia para o sustento próprio. Muitos duvidavam, mas outros tantos eram convencidos com sua história de vida, contada resumidamente em pouco mais de cinco minutos.
Este tempo era suficiente para percorrer duas estações e pular para um outro vagão. Chegava na estação final e ia para o outro lado, onde o trem voltava ao seu trajeto inicial. Cansado de procurar emprego e dos preconceitos, decidiu que focaria no seu poder de persuasão enquanto ele estivesse funcionando.
Ao contrário de muitos outros, ele não precisava entregar papéis ou vender balas ou chicletes. Seu poder estava na palavra, no tom de voz, na sinceridade.
Mal sabia como dava certo, só tinha a certeza que funcionava. Falava com o coração, com a calma. Contava boa parte de sua trajetória de vida e antes mesmo de terminar, já tinha gente contando trocados para lhe dar. Quando viu uma moça jovem chorando depois de ouvir seus relatos, viu que tinha potencial para a coisa.
Contava das dificuldades de levar comida pra casa, do filho com fome, das ausências do mais novo na escola por não ter como ir, das desculpas que ele inventava para eles para sofrerem menos. Quando um pouco aparecia, não pensava duas vezes para dar a ele, abdicando de sua própria alimentação ou felicidade.
A mãe havia sumido, desapareceu e nunca mais deu notícia. Tinha que se virar, deixava os filhos com a avó, aposentada e moradora de uma favela. Todos residiam juntos em um barraco de dois cômodos.
Em um dia comum, quando faltava pouco tempo para terminar a última viagem, foi abordado por um senhor de terno, que lhe entregou um cartão com um endereço. Foi no local no dia seguinte, mesmo receoso.
Ficou na dúvida quando chegou em uma igreja evangélica. Foi recebido pelo mesmo homem, que afirmou ter ficado impressionado com sua história de vida. Viu ali um potencial enorme para pregar e o convidou para ser pastor, com uma renda fixa e comissão sobre tudo que entrasse na casa de Deus como contribuição dos fiéis.
Mudou de vida, mas continuou tendo sua oratória como o ganha-pão. Nunca mais abandonou a igreja e fazia questão de usar suas experiências nos trens da capital para motivar e convencer seu rebanho. Seu depoimento ganhou um outro contorno, mas com a mesma base que sempre trilhou seu caminho.
A vida melhorou e sua evolução era um exemplo constante. Ele na sua história que ele convencia quem o ouvia de que tudo na vida tem sua hora, para o bem ou para o mal.
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Gandula nunca mais
Era só um pouco acima do peso, mas a pouca idade, aos oito anos, o fazia se destacar de forma negativa, principalmente quando estava perto dos amigos. Na hora da escolha dos times, no recreio, sempre era o último, apesar de saber o que fazer com a pequena.
Sentia-se rejeitado, mas o dia de vingar-se (silenciosamente) chegou mais rápido do que imaginava. Por intermédio do tio, diretor de futebol de um grande clube, conseguiu uma vaga de gandula no maior estádio da cidade.
Não falou nada com os amigos durante todo o dia na escola. A língua 'coçou', mas ficou quieto. Os amigos só foram descobrir na transmissão, quando o viram por trás das placas de publicidade.
A felicidade de ver o jogo do time do coração de perto logo transformou-se em tormento. Os quilos a mais logo se tornaram um empecilho.
Já tinha percebido que o físicos dos companheiros de reposição de bola era mais privilegiado, mas não tinha pensado que isso poderia fazer alguma diferença na função. Bastou o jogo começar para a 'ficha cair'.
Foi posicionado logo no meio do campo, atrás das placas de publicidade. A primeira bola que saiu foi do outro lado do campo. Quando viu o amigo gandula pulando a placa com desenvoltura, viu que sua missão seria complicada.
Quando chegou seu momento de repor a bola, o fez com eficiência. A dificuldade apareceu quando teve que pegar a bola que havia saído. Sabia que não tinha condições de pular a placa. Passaria vergonha, certamente, com uma queda histórica. Ririam dele no estádio e na escola. Difícil apontar qual situação seria pior.
Não teve outra opção a não ser dar a volta por todas as placas e caminhar rente ao campo para pegar cada bola que saía pela linha de lado. Mesmo vendo os olhares 'tortos' dos companheiros gandulas, ele conseguiu se virar. Não fez um único salto mas teve que correr mais do que qualquer um.
No dia seguinte, os amigos o idolatravam. No começo, até estranhou. Perguntavam tudo que era possível. Estar quase dentro do campo era o sonho de muitos. Só ele havia realizado, pelo menos na escola. Podia ter aproveitado a oportunidade para descontar uma raiva ou outra que havia passado, mas a lição dada pela mão não foi esquecida facilmente.
Só de pensar no próximo jogo em que seria gandula, desistiu. Abriu mão da vaga de espectador privilegiado para evitar as voltas que pareciam infinitas. Pular placas era uma missão impossível.
A fama serviu para que ele fosse um dos primeiros escolhidos na hora da 'pelada'. Afinal, tinha visto um jogo oficial de perto e só isso bastava. No final das contas, ver o jogo de perto valeu muito mais pelo reconhecimento na escola do que para se vangloriar de ter estado quase dentro do gramado.
Tê-lo no time era motivo de briga por parte dos colegas. O peso, agora, não era mais motivo de incômodo. Já tinha tudo o que queria, graças a uma participação que nunca mais se repetiria. ...read more ⇒
Adeus, Sorín
Esperava os dois filhos pequenos irem na frente para depois aparecer. A 'tática' costumava dar certo, mesmo que alguns fregueses dos bares da região logo percebessem sua presença, minutos depois.
Deixava os pequenos ganharem distância para tentarem vender as rosas, colhidas em um jardim próximo de casa. Depois que eles já estavam circulando em meio às dezenas de mesas, era tiro e queda. Olhar para o lado e lá estava a mãe, de longe, observando as crias, como quem protege os filhotes. Contava as moedas e mostrava a cara de desgosto.
O mais velho já estava até bem grandinho. Não conseguia mais, com tanta eficiência, sensibilizar os clientes. A ideia era usar o tamanho e a pouca idade para que as vendas fossem boas. Poucos eram o dias proveitosos. Quando ele voltava com quase nada, era xingado e tinha que escutar como se não tivesse cumprido sua obrigação.
Via-o oferecendo as flores para os casais e até para mesas só de homens, não custava tentar. Sentia, de longe, a preguiça nele. Eram mais de 10 anos naquela luta diária.
A falta de atenção que ele recebia a fez tomar a decisão que vinha sendo alimentada. Ter um novo filho. Precisava de alguém com mais eficiência nas vendas, era esse o objetivo.
Pouco pensava nas condições do barraco de um cômodo, onde todos dormiam amontoados. O marido ajudava pouco e tinha mais utilidade na procriação.
Com um filho mais novo, em três ou quatro anos, conseguiria colocar o novo membro nas ruas e ensiná-lo a melhor abordagem. O mais velho, que ainda servia para as vendas, seria 'aposentado' e teria que se virar sozinho.
Não dava mais. O apelido de 'Sorin', pelos cabelos compridos, era sua marca registrada. Já o irmão chamava atenção pela cicatriz no rosto e voz fina. Vendia fácil e despertava mais a atenção dos frequentadores de botecos e bares.
Pensou no que faria com o filho 'aposentado', que pouco sabia da vida e mal havia frequentado a escola. Olhou o bolso vazio e lembrou que estava em um dia fértil, ideal para que a data não fosse perdida. Logo tratou de assobiar.
Os dois logo apareceram e foram embora. Os dias seguintes podiam render novidades, boas para ela e não tão interessantes para o pequeno sósia argentino, que teria que se virar por conta própria. ...read more ⇒
Deixava os pequenos ganharem distância para tentarem vender as rosas, colhidas em um jardim próximo de casa. Depois que eles já estavam circulando em meio às dezenas de mesas, era tiro e queda. Olhar para o lado e lá estava a mãe, de longe, observando as crias, como quem protege os filhotes. Contava as moedas e mostrava a cara de desgosto.
O mais velho já estava até bem grandinho. Não conseguia mais, com tanta eficiência, sensibilizar os clientes. A ideia era usar o tamanho e a pouca idade para que as vendas fossem boas. Poucos eram o dias proveitosos. Quando ele voltava com quase nada, era xingado e tinha que escutar como se não tivesse cumprido sua obrigação.
Via-o oferecendo as flores para os casais e até para mesas só de homens, não custava tentar. Sentia, de longe, a preguiça nele. Eram mais de 10 anos naquela luta diária.
A falta de atenção que ele recebia a fez tomar a decisão que vinha sendo alimentada. Ter um novo filho. Precisava de alguém com mais eficiência nas vendas, era esse o objetivo.
Pouco pensava nas condições do barraco de um cômodo, onde todos dormiam amontoados. O marido ajudava pouco e tinha mais utilidade na procriação.
Com um filho mais novo, em três ou quatro anos, conseguiria colocar o novo membro nas ruas e ensiná-lo a melhor abordagem. O mais velho, que ainda servia para as vendas, seria 'aposentado' e teria que se virar sozinho.
Não dava mais. O apelido de 'Sorin', pelos cabelos compridos, era sua marca registrada. Já o irmão chamava atenção pela cicatriz no rosto e voz fina. Vendia fácil e despertava mais a atenção dos frequentadores de botecos e bares.
Pensou no que faria com o filho 'aposentado', que pouco sabia da vida e mal havia frequentado a escola. Olhou o bolso vazio e lembrou que estava em um dia fértil, ideal para que a data não fosse perdida. Logo tratou de assobiar.
Os dois logo apareceram e foram embora. Os dias seguintes podiam render novidades, boas para ela e não tão interessantes para o pequeno sósia argentino, que teria que se virar por conta própria. ...read more ⇒
Chama que não se apaga
Tinha só nove anos, mas já era trombadinha malandreado, cheio de ginga e nenhuma simpatia. Estava naquela vida há três anos e aprendeu tudo rápido e intensamente.
Os pais tinha morrido quando o barraco pegou fogo, assim como toda a favela. Teve que ir pra rua, se virar sozinho. Não demorou para encontrar uma turma com história parecida. Todo mundo sem pai nem mãe. Educação era o que não existia. 'Vida loka' era o lema, viver da rua e pra rua, cada dia novo vivo era pra ser comemorado e aproveitado.
No bando, Nêgo era o mais velho, 14 anos, lista grande de crimes (roubo, furto, desacato e até assassinato). Falava como se fosse o chefe e realmente era. Aprendeu muito com Nêgo. No jeito de falar, principalmente. Conseguia assustar e se livrar de várias somente empossando a voz. Puro teatro de rua, mas que dava muito certo. Sempre se livravam de tudo pelo fato de serem menores.
Em um roubo sem sucesso da quadrilha, se perderam. Nunca mais viu ninguém e teve que se virar.
Adorava tiner, mas logo parou. Tapeava a fome constante. O zumbido no ouvido incomodava, mas a onda era bem louca. Não demorou a perceber que aquilo ali prejudicava seu desempenho na criminalidade.
Ficava fraco e sem reflexo, alvo fácil pra polícia e alguns heróis civis que insistiam em aparecer e lhe passar o pé. Pra ir no banheiro era uma dificuldade. Só na rua e bem de madrugada. Para se lavar, usava o chafariz da praça, também bem de noite, quando ninguém estava na rua. O duro era ter que secar no frio, sem sol. Nem reclamava, só sofria.
Foi crescendo e conseguindo se virar. Tinha uma facilidade enorme para se esquecer de vários perrengues, quase atropelamentos, noites de frio, chuva, fome, sede e muita porrada, física e moral. Tinha orgulho de tudo que tinha feito, sozinho, na marra. A marca da sua vida levava no rosto, uma cicatriz grande no lado direito da face. Briga de rua com caco de vidro, coisa tensa que também não demorou pra ficar pra trás. 'É nois', falava, mesmo sozinho.
Até hoje, só não tinha matado. Não tinha coragem. Já tinha presenciado e tido oportunidades, mas não quis. Não sentia falta, mesmo com muitos dizendo que, a partir dali, a fronteira era outra, tudo mudava depois de tirar uma vida. A começar por uma tatuagem.
Isso não queria lembrar e guardar. Pensava muitos nos pais morrendo queimados, pedindo por ajuda. Os gritos ainda ecoavam em sua cabeça.
Em uma noite fria, acordou com um clarão. Incêndio bem ao seu lado. Saiu correndo, mas logo voltou. Conseguiu salvar duas pessoas do prédio em chamas depois de escutar muitos gritos de desespero. Por pouco, não salvou a terceira. Era um prédio abandonado e quando colocou o jovem no chão, viu que era Nêgo. O amigo das antigas estava ali, morto em seus braços.
Militares do Corpo de Bombeiros o elogiaram pela bravura. Conseguiu até mudar de vida entrando na corporação.
Gostava do destino que tinha sido traçado. Do ato de heroísmo, também levara um prêmio. Outra marca, um risco grande de queimadura no braço.
Tentaram colocá-lo para atender ocorrências, mas aquilo era demais pra ele. Os companheiros logo compreenderam que seu desempenho não era o mesmo. O trauma era grande e afetava a produção em momento de emergência.
Foi passado para atender as ligações. Mesmo do outro lado da linha, conseguiu salvar vidas, só na orientação. 'Vai pro último andar, procura um cobertor, pressiona o peito duas vezes, respiração boca a boca' e por aí vai. Fazia bem seu trabalho e o orgulho aparecia novamente, agora por uma causa mais nobre e louvável.
Mas não deu de novo. Cada vez que o telefone tocava, tudo voltava rapidamente em sua mente. Olhava para a cicatriz e começava a falar coisas sem nexo. 'Nêgo, pai, mão, tá vivo?'. Quem precisava de ajuda se perdia e agora mais atrapalhava do que ajudava.
Foi deslocado para o administrativo. Mas tudo insistia em aparecer. A cada telefone que tocava na sala de emergência, a cara sirene que fazia os soldados saírem correndo a todo vapor, entrando nos caminhões, lembrava dos seus casos e daqueles que aconteciam naquele exato momento.
O ex-trombadinha e agora bombeiro era agradecido pelas mudanças. Tinha salvado vidas e evitado catástrofes, mas o fogo que mais queria apagar era impossível. Nos momentos de mais incômodo, jogar água no rosto ajudava, por pouco tempo.
O frio amenizava o sofrimento. As lembranças dos roubos e crimes nem se comparavam com as memórias em chamas que sempre retornavam.
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Os pais tinha morrido quando o barraco pegou fogo, assim como toda a favela. Teve que ir pra rua, se virar sozinho. Não demorou para encontrar uma turma com história parecida. Todo mundo sem pai nem mãe. Educação era o que não existia. 'Vida loka' era o lema, viver da rua e pra rua, cada dia novo vivo era pra ser comemorado e aproveitado.
No bando, Nêgo era o mais velho, 14 anos, lista grande de crimes (roubo, furto, desacato e até assassinato). Falava como se fosse o chefe e realmente era. Aprendeu muito com Nêgo. No jeito de falar, principalmente. Conseguia assustar e se livrar de várias somente empossando a voz. Puro teatro de rua, mas que dava muito certo. Sempre se livravam de tudo pelo fato de serem menores.
Em um roubo sem sucesso da quadrilha, se perderam. Nunca mais viu ninguém e teve que se virar.
Adorava tiner, mas logo parou. Tapeava a fome constante. O zumbido no ouvido incomodava, mas a onda era bem louca. Não demorou a perceber que aquilo ali prejudicava seu desempenho na criminalidade.
Ficava fraco e sem reflexo, alvo fácil pra polícia e alguns heróis civis que insistiam em aparecer e lhe passar o pé. Pra ir no banheiro era uma dificuldade. Só na rua e bem de madrugada. Para se lavar, usava o chafariz da praça, também bem de noite, quando ninguém estava na rua. O duro era ter que secar no frio, sem sol. Nem reclamava, só sofria.
Foi crescendo e conseguindo se virar. Tinha uma facilidade enorme para se esquecer de vários perrengues, quase atropelamentos, noites de frio, chuva, fome, sede e muita porrada, física e moral. Tinha orgulho de tudo que tinha feito, sozinho, na marra. A marca da sua vida levava no rosto, uma cicatriz grande no lado direito da face. Briga de rua com caco de vidro, coisa tensa que também não demorou pra ficar pra trás. 'É nois', falava, mesmo sozinho.
Até hoje, só não tinha matado. Não tinha coragem. Já tinha presenciado e tido oportunidades, mas não quis. Não sentia falta, mesmo com muitos dizendo que, a partir dali, a fronteira era outra, tudo mudava depois de tirar uma vida. A começar por uma tatuagem.
Isso não queria lembrar e guardar. Pensava muitos nos pais morrendo queimados, pedindo por ajuda. Os gritos ainda ecoavam em sua cabeça.
Em uma noite fria, acordou com um clarão. Incêndio bem ao seu lado. Saiu correndo, mas logo voltou. Conseguiu salvar duas pessoas do prédio em chamas depois de escutar muitos gritos de desespero. Por pouco, não salvou a terceira. Era um prédio abandonado e quando colocou o jovem no chão, viu que era Nêgo. O amigo das antigas estava ali, morto em seus braços.
Militares do Corpo de Bombeiros o elogiaram pela bravura. Conseguiu até mudar de vida entrando na corporação.
Gostava do destino que tinha sido traçado. Do ato de heroísmo, também levara um prêmio. Outra marca, um risco grande de queimadura no braço.
Tentaram colocá-lo para atender ocorrências, mas aquilo era demais pra ele. Os companheiros logo compreenderam que seu desempenho não era o mesmo. O trauma era grande e afetava a produção em momento de emergência.
Foi passado para atender as ligações. Mesmo do outro lado da linha, conseguiu salvar vidas, só na orientação. 'Vai pro último andar, procura um cobertor, pressiona o peito duas vezes, respiração boca a boca' e por aí vai. Fazia bem seu trabalho e o orgulho aparecia novamente, agora por uma causa mais nobre e louvável.
Mas não deu de novo. Cada vez que o telefone tocava, tudo voltava rapidamente em sua mente. Olhava para a cicatriz e começava a falar coisas sem nexo. 'Nêgo, pai, mão, tá vivo?'. Quem precisava de ajuda se perdia e agora mais atrapalhava do que ajudava.
Foi deslocado para o administrativo. Mas tudo insistia em aparecer. A cada telefone que tocava na sala de emergência, a cara sirene que fazia os soldados saírem correndo a todo vapor, entrando nos caminhões, lembrava dos seus casos e daqueles que aconteciam naquele exato momento.
O ex-trombadinha e agora bombeiro era agradecido pelas mudanças. Tinha salvado vidas e evitado catástrofes, mas o fogo que mais queria apagar era impossível. Nos momentos de mais incômodo, jogar água no rosto ajudava, por pouco tempo.
O frio amenizava o sofrimento. As lembranças dos roubos e crimes nem se comparavam com as memórias em chamas que sempre retornavam.
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Manifestação é válida, mas foco é necessário
Este é apenas um relato de tudo que vi e senti durante a cobertura de ontem. Longe de mim ser o dono da verdade...
Antes mesmo de sair da redação, já sentia que eu entraria no olho do furacão. Talvez um faro de jornalista, que ainda será desenvolvido mais ainda ao longo dos anos. Não deu outra.
Minha função inicial era cobrir o trânsito e entrevistar quem estava parado em carros e ônibus por causa da manifestação. A maioria era a favor de tudo, por mais que aquilo os atrapalhasse momentaneamente. Depois disso, não tinha outro jeito, a não ser acompanhar de perto tudo que acontecia.
No meio de toda a multidão, admito que senti orgulho de fazer parte daquilo, mesmo sem ser um dos manifestantes. Ver o povo na rua, lutando por direitos e melhorias é bonito demais. Depois de serem impedidos de continuar e aguardarem, a PM cedeu e deixou o povo continuar caminhando. Foi um grito de vitória aquele momento. Vi gente se abraçando, como se fosse um gol.
Na sequência, todos cantando o hino nacional. Foi de arrepiar.
Em seguida, em frente à UFMG, novo impedimento. Em conversa com o Tenente Coronel Alberto Luiz, depois das confusões, ele garantiu que a PM cederia novamente,
mas algumas pessoas que se auto-intitularam líderes, como professores, afirmaram quem não esperariam mais e partiriam pra cima. Dito e feito e começou toda a confusão.
De um lado, o povo, instalando uma barreira de fogo e atirando paus e pedras. Do outro, a PM, com bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e balas de borracha. Sobrou até pra mim, mas nada de grave. Vi que estava, de verdade, no olho do furacão. Muita correria e algumas depredações, que logo eram vaiadas pela maioria.
Ainda continuo sem entender porque alguns cobrem o rosto. Parecem que vão com segundas intenções.
Outra impressão que tive foi a de que falta algum líder para negociar. Vi alguns tomando partido e sendo ouvidos, mas alguns representantes precisam ser definidos, até para que se estabeleça um foco.
Muitos pareciam estar ali sem muito motivo, apenas para fazer parte. É preciso saber pelo o que se está protestando.
Um dos momentos marcantes foi quando a Coronel Cláudia tentou ser agredida por alguns manifestantes. Outros conseguiram impedir e fizeram um cordão de isolamento, até um lugar mais seguro.
Os gritos de 'Sem violência!" ainda ecoam na minha cabeça. Me pego cantando isso do nada, como se fosse uma música daquelas que gruda e não sai mais.
Acho os protestos válidos e sou a favor de tudo de forma pacífica. Uma ação vai gerar reação e, a partir daí, perde-se a razão e a possibilidade e diálogo e negociação. O que poderia estar perto, fica distante. Não compensa, por maior que seja a revolta. Rebelar-se não vai adiantar, pode ter certeza.
Torço por mais protestos e muitas mudanças. Mas o foco precisa ser definido, por mais que tantas coisas incomodem a todos nós.
O momento é agora, esta é uma das certezas que tenho. A visibilidade está garantida, todos os olhos estão voltados para o Brasil.
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Minha função inicial era cobrir o trânsito e entrevistar quem estava parado em carros e ônibus por causa da manifestação. A maioria era a favor de tudo, por mais que aquilo os atrapalhasse momentaneamente. Depois disso, não tinha outro jeito, a não ser acompanhar de perto tudo que acontecia.
No meio de toda a multidão, admito que senti orgulho de fazer parte daquilo, mesmo sem ser um dos manifestantes. Ver o povo na rua, lutando por direitos e melhorias é bonito demais. Depois de serem impedidos de continuar e aguardarem, a PM cedeu e deixou o povo continuar caminhando. Foi um grito de vitória aquele momento. Vi gente se abraçando, como se fosse um gol.
Na sequência, todos cantando o hino nacional. Foi de arrepiar.
Em seguida, em frente à UFMG, novo impedimento. Em conversa com o Tenente Coronel Alberto Luiz, depois das confusões, ele garantiu que a PM cederia novamente,
mas algumas pessoas que se auto-intitularam líderes, como professores, afirmaram quem não esperariam mais e partiriam pra cima. Dito e feito e começou toda a confusão.
De um lado, o povo, instalando uma barreira de fogo e atirando paus e pedras. Do outro, a PM, com bombas de efeito moral, gás lacrimogênio e balas de borracha. Sobrou até pra mim, mas nada de grave. Vi que estava, de verdade, no olho do furacão. Muita correria e algumas depredações, que logo eram vaiadas pela maioria.
Ainda continuo sem entender porque alguns cobrem o rosto. Parecem que vão com segundas intenções.
Outra impressão que tive foi a de que falta algum líder para negociar. Vi alguns tomando partido e sendo ouvidos, mas alguns representantes precisam ser definidos, até para que se estabeleça um foco.
Muitos pareciam estar ali sem muito motivo, apenas para fazer parte. É preciso saber pelo o que se está protestando.
Um dos momentos marcantes foi quando a Coronel Cláudia tentou ser agredida por alguns manifestantes. Outros conseguiram impedir e fizeram um cordão de isolamento, até um lugar mais seguro.
Os gritos de 'Sem violência!" ainda ecoam na minha cabeça. Me pego cantando isso do nada, como se fosse uma música daquelas que gruda e não sai mais.
Acho os protestos válidos e sou a favor de tudo de forma pacífica. Uma ação vai gerar reação e, a partir daí, perde-se a razão e a possibilidade e diálogo e negociação. O que poderia estar perto, fica distante. Não compensa, por maior que seja a revolta. Rebelar-se não vai adiantar, pode ter certeza.
Torço por mais protestos e muitas mudanças. Mas o foco precisa ser definido, por mais que tantas coisas incomodem a todos nós.
O momento é agora, esta é uma das certezas que tenho. A visibilidade está garantida, todos os olhos estão voltados para o Brasil.
Shopping nunca mais!
Custou a ganhar dinheiro com o futebol, mas quando começou, foi muito, muito mesmo.
Era, como muitos, de família pobre e de muito talento. Perdido no
início de carreira, rodou até por time de segunda divisão portuguesa
antes de voltar pro Brasil, uma daquelas apostas de time grande.
Deu certo. Artilheiro do campeonato e até uma convocação pra seleção.
Time no top 4, aquela beleza. “Graças a Deus, o trabalho deu resultado,
com ajuda dos companheiros e do treinador. Agora é treinar forte em
busca dos três pontos”, aprendeu bem com o assessor.
Mais um daqueles gastos que pareciam infinitos. “Assessor pra quê?”, pensou muitas vezes.
Até o dia em que brigou na saída de uma boate. O telefone não parava,
não sabia dar entrevista e nem aparecer na televisão. Aquele custo ali
compensava. Tudo deu menos errado por causa de uma indicação, que durava
até hoje.
Outro gasto que valia a pena ter era não ter que ir em shopping. Odiava!
A mulher insistia para acompanhá-la nas compras e ele não suportava
aquilo tudo. Foi uma vez pra nunca mais voltar. E justamente quando a
fase era boa. Não conseguiu comprar um tênis e pedir o almoço. Nem ao
mesmo estacionar. Era foto, autógrafo e falação, uma buzina danada.
Crescido no interior, se sentia um peixe fora d´água. “Tudo junto no
mesmo lugar, que coisa mais besta. O dia vira noite e você nem
percebe”, justificava.
Pra evitar problema, deixava o cartão
com a mulher. Ela ia, mesmo com uma ponta de tristeza. Conseguiu aliviar
ainda mais quando disse que a senha do cartão era a data de aniversário
de namoro.
Sentia um alívio de não precisar enfrentar
trânsito e ficar naquele entra e sai de loja, vendedor, caixa, senha,
experimenta, troca, esseestáa bom, esse não serve. Tinha dinheiro era
pra gastar, pagava até o taxi da madame.
Não demorou pro
futebol cair e ficar duro. Perdeu a esposa, o bicho pegou quando falou
pra ela ir fazer compras no cidade da cidade, de ônibus. E se quisesse!
Teve que dar metade de tudo que tinha pra ela na separação. Voltou pro esquecimento.
Rodou, rodou e rodou, ficou velho e aposentou. Não largou a bola, foi pro futebol amador.
Tentou uma última chance com um agente. Ele pediu um encontro logo onde
o quase ex-jogador não queria. Não teve jeito. Foi lá e saiu mais
triste do que entrara.
A proposta era um abuso e ninguém o reconheceu. Ficou com ainda mais raiva daquilo tudo.
Vivia com o pouco que tinha e era atração do bairro onde nascera. Foi o
único que virou jogador de futebol profissional. Sentia saudade da
mulher, mas logo passava quando a lembrança do shopping voltava.
“Coisa dos infernos...”
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Ajoelhou, nada de rezar...
Baseado em fatos reais...
4h11 da manhã, toca o telefone. Demorou para atender. Imaginou que seria trote ou notícia ruim. Acertou em cheio, mas o que chegou era inimaginável.
- Alô?
- Boa noite. Senhor João?
- Sim...
- Desculpe incomodá-lo a esta hora, mas o assunto é urgente. Meu nome é Marina, sou coordenadora do hospital municipal do Rio de Janeiro. Sua filha deu entrada há pouco, após sofrer um acidente de moto. Infelizmente, ela não resistiu.
Segundos de silêncio..
- Senhor?
- Sim, eu escutei. Vou tentar ir para aí o quanto antes.
- Ok, senhor, obrigada.
Levantou e mal conseguiu raciocinar. Ele, viúvo e a filha única, morta. Cansou de dizer a ela para não comprar moto, que era perigoso. Seu maior receio se confirmara.
Com a roupa do corpo e uma pequena mala, partiu para a rua com os R$ 17 que tinha no bolso. Foi até a rodoviária. A passagem custava R$ 67.
Não teve outra opção, a não ser contar com ajuda dos transeuntes. Em cada rosto, uma esperança de ajuda. Por ali, pouco conseguiu.
Resolveu entrar no metrô, ali o fluxo de pessoas era maior.
Na primeira viagem que fez, entrou no vagão e sem pensar, ajoelhou-se.
- Desculpe incomodá-los, senhores. Minha filha acaba de morrer em um acidente de moto, preciso ir ao RJ e não tenho dinheiro. Será que vocês podem ajudar um pobre viúvo, que acaba de perder a filha única?
Poucos olharam para ele, alguns ignoraram, outros começaram a mexer nos bolsos. Moedas, notas, tudo era bem-vindo. Não tinha familiares na cidade, as opções eram escassas. Senão, não estaria ali, de joelhos, pedindo esmola para desconhecidos, contando com bom coração de qualquer um.
Demorou quatro horas para conseguir os R$ 50. A ida estava garantida, a volta se arranjava por lá.
Chegando ao Rio, teve que pedir mais esmola para conseguir o dinheiro da passagem até o hospital. Chegando lá, confirmou a informação, ainda tinha esperanças de ter havido algum erro. Nada disso. Poderia começar a pensar na sua vida mais do que solitária, a partir de agora.
A 'tática' da esmola seria uma constante. A filha, que o ajudava constantemente, se fora, deixando pouco ou quase nada.
Ficar de joelhos dentro de vagões seria um trabalho diário a partir de então, que traria poucos resultados. Nada de agradecer, muito por lamentar.
Joga fora no lixo
Divorciado duas vezes, 66 anos, pai de um casal, aposentado. Há quatro anos se mudara para o interior, não dava mais conta de cidade grande. Barulho, gente mal educada e o trânsito. Ah, o trânsito. Só de lembrar que ficou livre de passar perto de shoppings em final de ano sentia um alívio único.
Ali, tinha tudo que queria. Paz, sossego, vida tranquila, cavalo e boi na rua, moço do leite, menino brincando, poucos vizinhos, todos se conhecem. Trabalhou a vida inteira para estar ali, sem luxo e conforto, mas sem faltar nada. Saúde de ferro, nem se lembrava da última vez que adoecera.
Os filhos estavam longes, as ex-mulheres ainda mais, graças a Deus. O que ele teve de tormento na vida por causa de mulher, não cabia no papel. Mas as velhas manias estavam ali, até hoje. As duas ex deviam abrir um sorriso só de pensar nas louquices que deixaram para aquele senhor careca, barrigudo, de óculos e com preocupações de menos.
Uma das poucas, mas que não o incomodava, era a organização. Tudo sempre estava no seu devido lugar, principalmente os papeis. Santos papéis. Santinhos, bilhetes de loteria, recado, cartas, avisos, lembretes, listas. Tinha de tudo.
Os papéis ficavam bem ao lado da agenda verde, que tinha seu lugar na mesa da sala, ao lado do telefone. um bloco de anotações e pequenas latas de refrigerantes, que foram aproveitadas para canetas, lápis maior, lápis menor. Se o lápis era menor que um mindinho, já era rebaixado. Coisa metódica.
Uma foto com os filhos decorava e refletia o jornal do dia, que no dia seguinte, não ia para o lixo. Não senhor.
A mesa do café da manhã era posta às 6h em ponto, todos os dias. Tinha dia que não achava a colher exclusiva de mexer o café e se desnorteava. Perguntava pra sua empregada e nada. Dias depois, achava a bendita no fundo da última gaveta, bem onde devia estar. Xingava alto.
Nenhum jornal era jogado fora. Um ato de três décadas que deu um baita trabalho na hora da mudança. E pra explicar pro moço do carreto o motivo de levar tanto jornal embora?
- É pra embalar vidro, é?
- Né não, vamos embora - respondeu sem dar chance de resposta.
Aquela compilação deixaria qualquer jornalista feliz. Afinal, notícias, mesmo do dia anterior, não foram
feitas para serem jogadas fora. Entrevistas, apurações e muito texto eram preservados.
Mas, o motivo era outro. Ele simplesmente não conseguia jogar fora. Reservou um dos quartos para os jornais velhos, não lidos, lidos, foleados e recentes.
O quarto era de uso exclusivo e ai de quem tentava entrar ali. Quando o perguntavam o que tinha ali, a resposta era rápida: 'umas coisas velhas', seguido de uma conversa qualquer para distrair.
Juntava todos da semana na velha mesa antes de passá-los ao quarto. Um em cima do outro, não podia sobrar espaço.
A cada entrada no quarto, se impressionava com o que tinha conseguido reunir. Era coisa pra pouca gente, isso é certo. Um feito histórico, vangloriava-se. Mas reconhecimento era algo que não queria. Era um prazer pessoal, intransferível.
Até hoje não sabia explicar o sentimento de todo aquele pertencimento. Confundia-se na dificuldade de jogar tudo aquilo fora.
Era meticuloso em excesso. No jeito de falar, sempre formal, mesmo no buteco da esquina. Gostava de política e futebol. Boa música, claro, principalmente no radinho de pilha, um companheiro de longa data. TV, só na hora do noticiário das 20h. Nada de filmes, no máximo um jogo de bola.
Não sabia nada de tecnologia, computadores, gostava mesmo era do contato físico, do cheiro do papel, dos traços escritos e rabiscados, na mensagem enviada e registrada de forma primitiva. Era um verdadeiro rei dos papéis.
Algumas vezes, entrava para reler alguma edição e percebia a preciosidade do que tinha guardado. Momentos históricos preservados, mesmo já amarelados, desgastados, mas úteis. Mais pro apreciação pessoal.
Mas seu feito merecia valor. Reuniu coragem e foi ao jornal da cidade. Não demoraram a fazer uma matéria, que logo ganhou distâncias.
A universidade estadual logo o ofereceu um bom dinheiro em troca de doação. O valor para os alunos seria inestimável em ter tudo aquilo à disposição. Com dor, levou o combinado. Quase chorou quando viu tudo aquilo sair. Virou as costas, não quis se despedir de tantas capas, contra-capas, artigos, matérias, palavras cruzadas e quadrinhos. Eram tantos nomes, tantos entrevistados, tanta coisa...
Sentia que fizera sua parte. Era hora daquilo servir para algo, ajudar os outros. Nunca tinha pensado que aquilo, um dia, teria utilidade.
Teve dificuldade para encontrar novas manias. A casa ficou vazia, algo faltava. Não queria mais saber de jornal guardado.
Lembrava e lamentava, depois sorria ao saber que sua figura dera nome à sala da faculdade, onde tudo era mantido, com muito mais cuidado.
Voltou ali por duas vezes, e só. Teve uma homenagem simples, como ele. Nada de dinheiro, nada de status.
Continuou comprando seu jornal diário. Mas, agora, o destino era a lata de lixo, sem sofrimento.
Repórter não pode fugir da luta!
Repórter precisa ter paciência, dedicação e um olho bom. Precisa estar atento a tudo e a todos. Qualquer movimento pode virar uma pauta, uma fala, uma citação. Precisa sentir o ambiente. Perceber um grupo que se reúne ou alguém que está sozinho, tudo isso pode render algo.
Não pode ter medo, vergonha ou receio de ir falar com quem quer que seja. Tem que tentar. O máximo que vai acontecer é um papo rápido, uma viagem nem tão perdida quanto possa parecer. Ao lado do fotógrafo, faz uma das duplas mais temidas e respeitadas do jornalismo. Uma sincronia boa pode fazer a diferença.
Repórter tem que meter a cara, perguntar por que, como, onde, quando, quem e muito mais que lhe passar pela cabeça. Precisa ter criatividade para elaborar uma boa pauta, fazer uma pergunta diferenciada, que muitos podem estar pensando, mas não tiveram a audácia de perguntar. Sem medo de ser feliz e de ser criticado, por assessoria, editor ou leitor.
No dia do repórter, minha admiração por vários destes profissionais, de jornal, TV, revista ou rádio. Cada um passa por dificuldades diferentes e ao mesmo tempo parecidas. Enquanto o perrengue de uns é ouvido, de outros é visto e de alguns outros é lido. Muitas vezes, tudo isso que acontece por detrás de uma matéria passa despercebido quando uma ela é publicada.
Com ou sem estrutura, a obrigação é a veiculação, com o máximo de qualidade e autenticidade possível. Depois disso, resta aguardar por um retorno, que muitas vezes nem acontece. O silêncio pode ser o melhor dos elogios.
Sigamos no caminho, perseverando, acreditando que cada fala ou linha pode ser lembrada e fazer a diferença, para o bem ou para o mal.
Não fujamos da luta. ...read more ⇒
Chuva deu toque especial à BH no final de semana
Um céu escuro não sobressaiu diante do inevitável arco-íris (crédito: Cacá Pádua)
Belo Horizonte sofre com as chuvas, mas há alguns dias as gotas que caíram sobre a capital mineira despertaram certa curiosidade e admiração.
Em poucos minutos, pôde-se ver uma área completamente nebulosa, com uma ligeira luz iluminando um pequeno espaço.
Ventos fizeram com que a água que caía fosse para diferentes lados, ao mesmo tempo. O efeito foi raro.
Enquanto de um lado chovia, do outro fazia sol, sem nem saber que alguns pingos logo chegariam por ali.
Um céu escuro encobriu os prédios da capital e o tom, aos poucos, foi mudando, até se perder de vez, dando lugar aos raios de sol e uma limpada boa no cenário da capital.
Para dar um colorido especial, nada mais justo do que um arco-íris. Coisa de cinema, BH.
O escuro do céu foi embora e deu lugar à chuva e neblina. Mas o arco-íris foi insistente. (crédito: Cacá Pádua)
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Ansioso cheio de prontidão
Ansioso e paranóico, mas tinha um coração daqueles. Se o pessoal que o conhecia somente pela 'pilha', ficasse sabendo do tamanho da bondade que tinha ali, trucava no ato.
Mas tinha hora pra tudo. Mais pra ficar puto com tanta falta de paciência que o consumia em quase todos os dias. Mas também tinha dia para relaxar e mostrar um outro lado.
A bondade, no entanto, não tinha hora pra aparecer. Em alguns momentos onde se jurava que o cara ia explodir, ele abria o coração e mostrava um lado ainda desconhecido por muitos.
Alguns o taxavam de louco. Mas, também, o que dizer do cara que comprava isqueiro só pra acender cigarro dos outros? Tinha sempre um de prontidão, assim como uma caneta.
Assim que via alguém com um cigarro na boca, já chegava quase assustando a figura, com a chama acesa. Não foram poucas as vezes em que o cigarro já estava aceso e a ansiedade aparecia como traidora, o fazendo sair de fininho, com um ou outro rindo pelas costas.
No chaveiro, um abridor de garrafa. Perdeu a conta de quantas já havia aberto para clientes e garçons ao lado. Aquilo ali já lhe rendera algumas amizades de boteco e poucas conquistas rápidas, regradas a algumas cervejas abertas exclusivamente pelo companheiro de bolso.
A fama de louco e bondoso sempre lhe rendeu boas lembranças por parte dos outros.
Quando morreu, não deu outra. Virou um anjo da guarda. Ainda sem paciência, mas cheio de prontidão.
Mudança repentina
Fiscal do aeroporto internacional, era daqueles linha dura, não deixava passar nada.
Só de bater o olho, já decidia se ia aliviar ou não, com poucas exceções. Moças bonitas, crianças, idosos e deficientes eram liberados.
Todo o resto sofria, ainda mais quando a aparência merecia desconfiança.
Em um de seus vários dias ruins, viu o loiro cabeludo de longe. Tatuado, jaqueta de couro, carregando um violão nas costas, tipão de cantor. Esse não escapava.
Quando chegou perto para mostrar o passaporte, a situação piorou, quando um tripo piercing na orelha chamou a atenção, além de mais dois no nariz.
- 'No way', se limitava a dizer o fiscal, para desespero do artista, que já estava em cima da hora.
Com duas horas e meia de atraso, ele pôde entrar no palco, tudo culpa do funcionário que insistiu em não autorizar sua entrada. Produtor, empresário e até gente do governo teve que intervir para conseguir a liberação do astro internacional, que mal era conhecido pelo carrancudo senhor, que ainda teria uma surpresa ao chegar em casa.
A mulher tinha dois ingressos para o show da noite, presente do chefe. Não tinha como não ir. Mal sabia o esforçado esposo que estava prestes a ver seu desafeto em breve. Não se interessava por música, sua vida se limitava ao trabalho e família.
Antes mesmo da metade do show, já estava impressionado pela presença de palco do jovem artista. Conseguiu, por poucos momentos,pensar em como ele deveria ter se sentido mais cedo, querendo apenas entrar no país para fazer seu trabalho. Foi barrado, sem motivo, por um cara qualquer, provavelmente, um mal amado doido para estragar o dia alheio.
Viu-se numa posição detestável. Dali em diante, pensou menos no seu instinto, que poucas vezes funcionava. As aparências perderam valor e passou a tratar o trabalho como merecia, sem inventar situações apenas para mostrar alguma autoridade.
Mas a maior vantagem veio pelo gosto da música, que começou a ganhar forçar desde então, sem distinção de estilos e aparências.
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Cemitério de anões
Formado e desempregado, pai e separado, vivia no limite há anos. Poucos bens, como um carro de 12 anos de usado e algumas felicidades, como ir ver o time no estádio com os amigos.
Tinha, ainda, um imóvel. Um lote herdado pelo pai, há mais de 20 anos. Sempre pensou em fazer algo dali, mas a condição financeira e a preguiça só de imaginar no trabalho que aquilo daria impediam.
Mas foi em um desses jogos de futebol que veio a inspiração. Instantes antes da partida começar, o pequeno mascote cai duro no gramado. Entradas do time atrasadas, resgaste na ambulância e a notícia lá pelo final do jogo: o anão morrera, mal súbito bravo.
No dia seguinte, ouviu no rádio sobre a dificuldade da família em achar um cemitério de anões. Não havia nenhum na cidade e o mais próximo exigiria muito dinheiro dos entes queridos.
Não soube o que se sucedeu com o finado mascote, mas sabe que foi ele o causador da reviravolta em sua vida financeira.
Um mês depois do fatídico jogo, tomou a iniciativa de pedir um empréstimo e começar a limpeza do lote, que seria o primeiro e único cemitério da cidade exclusivo de anões.
Apesar de pequeno, o local comportava bem uma capela, um único local para velório e um bom jardim, com algumas árvores e sombras. A rotatividade de 'clientes' não era alta, mas o valor cobrado superava o custo que as famílias da cidade, com alto índice de pessoas daquela estatura, costumavam gastar para transporte e toda a produção de um funeral decente.
Ficou rico e não teve dificuldades para comprar o lote ao lado, quando 1200 caixões ocupavam todo espaço. Virou notícia de revista e jornal e sempre citava o episódio como inspiração de sua mudança. ...read more ⇒
Semelhanças dentro e fora do bar
Garçom que é bom não basta ter um mínimo de escolaridade para saber escrever cachaça e outras pérolas.
Não basta ser educado, cortês, gentil e atencioso. Tudo isso ainda é insuficiente.
Um bar sem um bom garçom é como um time sem um bom camisa 10.
Não dá pra se omitir, tem que aparecer pro jogo o tempo todo. E o mais importante: jogar de cabeça levantada, saber se tem gente por trás, pela frente, pelos lados, com a mão levantada, pedindo bola ou somente mais uma cerveja.
Não dá pra ficar esperando a figura surgir, depois de tanta omissão. Tem que ser pró-ativo, não pode deixar sua ausência ser notada por um longo período. Se for assim, uma derrota pode ficar próxima.
O adversário agradece, a torcida que comparece se enfurece e não volta mais. Ponto pra concorrência, que tem no seu maestro sorridente um diferencial, sempre a postos para atender, sugerir e distribuir o jogo com elegância. Esse sujeito faz a diferença.
Tem gente que mesmo depois do apito final, fica por ali, seduzido pelo bom grado de quem não lhe esqueceu. Os acréscimos viram incontáveis saideiras.
Garçom ruim de serviço é igual volante da roça, que não olha para os lados e só chuta para onde o nariz aponta. Parece usar aquele cabresto, que impede que olhe para os lados, tem medo de levantar a cabeça e ver tudo que se passa ao seu redor. Mais tarde ou mais cedo (possivelmente mais bem cedo), a casa vai cair.
Torcida e clientela vão reclamar, se precisar falam até diretamente com o presidente.
Garçom e camisa 10 de qualidade fazem a diferença, podem acreditar.
Dá até gosto de ver como ‘rebolam’ para dar conta de tudo, mostrando que o que parece difícil, não é tão assim. É tudo questão de prática, costume e vontade de querer sempre fazer o melhor possível .
Garçom ruim é pior que goleiro inseguro. A qualquer momento, tudo por ir por água abaixo.
Se uma cerveja demora, imagine a conta. Não sabe dar 12% das informações que lhe são perguntadas e gagueja quando deveria mostrar consistência. Uma bola fácil vira algo impiedoso.
Quando a bola chega, não sabe o que faz. Se solta ou se segura, se chuta ou se passa. Confiança e dedicação são fundamentais. O cara precisa querer e isso a gente percebe com poucos minutos de jogo. Ter uma referência que deixa a desejar não dá. Uma noite infeliz é sempre possível, mas várias seguidas é quase impossível, exige demais da paciência e boa vontade.
Não há torcida ou clientela que aguente. Não há bar ou time que vá pra frente
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